A pergunta que deu nome ao painel era direta: “Sustentabilidade econômica do setor – a conta fecha?”. A resposta, no entanto, passou por temas que vão além da planilha de custos. Na tarde desta quarta-feira, 20 de maio, na Arena 3 da Hospitalar 2026, lideranças da saúde discutiram modelos de remuneração, glosas, pressão assistencial, falhas de mercado e a necessidade de reorganizar incentivos em um setor no qual a conta, muitas vezes, chega ao beneficiário.
O painel contou com Mário Jorge, presidente da UNIDAS; Cláudia Cohn, CEO de rede de diagnósticos Alta (Grupo D)asa; Wilson Pedreira, CEO da AHFIP – Associação de Hospitais Filantrópicos Privados, e Breno Monteiro, presidente da CNSaúde, responsável pela moderação.

Ao conduzir a conversa, Breno provocou os participantes sobre um dos pontos mais sensíveis da relação entre operadoras e prestadores: como reduzir a tensão em torno de glosas, pagamentos e modelos de remuneração. Para Mário Jorge, a resposta passa pela revisão dos incentivos que sustentam o modelo atual.
“Temos um modelo de pagamento com incentivos perversos, que não premia eficiência nem investimento. Ele ainda está baseado em um dos princípios mais elementares do capitalismo, que é a produção. No fim da linha, o beneficiário paga a conta, o prestador fica sob risco e a operadora enfrenta dificuldades, porque a equação não fecha”, afirmou Jorge.
Na avaliação do presidente da UNIDAS, discutir sustentabilidade exige enfrentar falhas estruturais do mercado de saúde. Entre elas, está a assimetria de informações, que dificulta decisões mais racionais e mantém o setor preso a disputas operacionais.
Já Wilson Pedreira defendeu que o setor avance em transparência e autorregulação para evitar que distorções do mercado recaiam sobre quem não deveria arcar com elas. “Se o mercado não se autorregula, alguém vai regular. Precisamos trabalhar com transparência, do jeito que deve ser, para que os inocentes não paguem a conta”, disse.
Mário Jorge relacionou a expansão da saúde suplementar a dois fatores: crescimento econômico e eficiência do cuidado. Segundo ele, há uma associação direta entre o número de usuários de planos de saúde e o desempenho da economia, já que o plano segue como objeto de desejo de grande parte da população. Mas o avanço, ponderou, só será sustentável se o setor conseguir tornar o cuidado mais eficiente e compatível com a capacidade de pagamento de quem financia o sistema. “Problemas estratégicos não se resolvem com soluções operacionais. Eles exigem respostas estratégicas complexas”, afirmou.
Na visão do presidente da UNIDAS, o desenvolvimento da saúde suplementar também tem impacto sobre o sistema público. Ao ampliar o número de beneficiários, parte da demanda deixa de pressionar o SUS. Ao mesmo tempo, disse ele, os dois sistemas precisam ser analisados de forma integrada. “O desenvolvimento da saúde suplementar contribui muito para a saúde pública, e vice-versa. Se formos mais eficientes no cuidado, conseguimos discutir expansão com mais responsabilidade e aproximar o plano de saúde do bolso de quem paga”, completou.
Cláudia Cohn levou o debate para a jornada do paciente. Ao tratar dos chamados inegociáveis da saúde, destacou que o paciente deve estar no centro da organização do sistema e que a interoperabilidade é condição para melhorar a coordenação do cuidado. “O paciente é o primeiro dos inegociáveis. Ele tem seus procedimentos, sua trajetória dentro do sistema, e a interoperabilidade é fundamental”, comentou.
Ao comentar temas como tributação e custos, Mário Jorge voltou ao ponto da eficiência. Para ele, antes de concentrar a agenda apenas em pressões externas, o setor precisa olhar para os próprios modelos de cuidado, remuneração e gestão. “Se nos tornarmos mais eficientes, a questão tributária passa ao lado”, argumentou.
No encerramento de sua participação, o presidente da UNIDAS defendeu que as entidades do setor estejam mais próximas dos espaços de decisão, levando conhecimento técnico para qualificar o debate público.
“Precisamos estar perto dos decisores por meio do conhecimento. E precisamos ser otimistas”, concluiu.
No painel, a sustentabilidade econômica foi tratada menos como uma disputa entre quem paga e quem recebe, e mais como consequência de um modelo que ainda remunera volume, convive com baixa transparência e distribui mal os riscos. A provocação inicial, sobre se a conta fecha, terminou com uma resposta menos contábil: sem rever incentivos, informação e eficiência do cuidado, a conta apenas muda de mãos.




