Hospitalar 2026: “Cuidado fora do hospital exige governança e jornada definida”, defende Amanda Bassan

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Hospitalar 2026: “Cuidado fora do hospital exige governança e jornada definida”, defende Amanda Bassan

Gerente executiva da UNIDAS participou de painel sobre atenção domiciliar e cuidados de transição durante
congresso da ENCOSAD


A atenção domiciliar não se resume a levar o cuidado do hospital para dentro de casa. Para Amanda Bassan, gerente executiva da UNIDAS – Autogestão em Saúde, o principal desafio está em definir quem coordena essa jornada, quais responsabilidades cabem a cada agente e como evitar que a família assuma, sozinha, uma função para a qual nem sempre está preparada.

A avaliação foi feita nesta quinta-feira, 21 de maio, durante o painel “Cuidados Continuados no Brasil: Entre Sustentabilidade, Regulação e Responsabilidade — quem governa o cuidado fora do hospital?”, realizado na sala 108 do São Paulo Expo. O debate integrou a programação do CAD – Congresso de Atenção Domiciliar e Cuidados de Transição, evento oficial da Hospitalar 2026.

A mesa reuniu ainda Anna Karina Deslandes, consultora técnica da Coordenação Geral de Atenção Domiciliar do Ministério da Saúde; Leandro Firme, CEO da Unimed Porto Alegre, e Patrícia Palomba, CEO do grupo Global Care. A mediação ficou por conta de Tacyra Valois, vice-presidente da Sinapse Brasil.

Amanda abriu sua participação lembrando que começou a estudar cuidado continuado e transição assistencial há cerca de dez anos, quando ainda havia pouca produção sobre o tema. Com trajetória em operadoras de autogestão, ela afirmou que a discussão envolve indicadores, prestadores qualificados, financiamento, regulação e escopo assistencial. Mas, na sua avaliação, o maior gargalo está na ausência de uma jornada executável.

“Acho que o maior desafio é justamente a ausência de uma governança executável e de uma jornada de fato possível. Hoje, muitas vezes, a operadora autoriza e paga, o prestador executa, e a família fica no meio tentando coordenar esse cuidado. A pergunta é: ela está preparada para isso?”, questionou.

A gerente executiva da UNIDAS relacionou o tema à transição demográfica. Com a população vivendo mais e famílias menores, o cuidado fora do hospital passa a depender de arranjos cada vez mais complexos. Em muitos casos, disse, há idosos cuidando de idosos; em outros, a família não tem tempo, estrutura ou preparo para assumir a coordenação da rotina assistencial.

De acordo com Amanda, o setor precisa separar três dimensões que costumam aparecer misturadas no debate. A primeira é o cuidado assistencial de saúde, prestado por equipes de enfermagem, fisioterapia, médicos e demais profissionais. A segunda é o cuidado social, ligado ao apoio diário ao paciente. A terceira é a coordenação da jornada, responsável por conectar hospital, atenção primária, operadora, prestador e domicílio. “A gente precisa construir esse modelo para dar mais segurança ao paciente, às famílias, aos prestadores, à operadora e ao sistema”, afirmou.

Além disso, os dados, segundo ela, precisam deixar de ser apenas instrumentos de controle de custos e passar a orientar a coordenação do cuidado. Ao citar a Pesquisa UNIDAS 2025, Amanda informou que o custo médio de uma internação domiciliar nas autogestões é de cerca de R$ 15 mil, enquanto uma internação clínica média chega a aproximadamente R$ 33 mil.

A diferença, ponderou, não deve ser interpretada apenas como economia. Para Amanda, o ponto central é avaliar se o cuidado domiciliar evita reinternações, reduz internações desnecessárias e melhora a experiência do paciente. “A coordenação do cuidado não pode olhar só para custo. O cuidado domiciliar pode ter custo menor, mas o ponto é o melhor cuidado: evitar reinternações, reduzir internações desnecessárias e considerar a experiência do paciente nessa equação”, avaliou.

Amanda Bassan durante debate na Hospitalar

A Pesquisa UNIDAS 2025 também mostra que 11% das internações nas autogestões são domiciliares, diante de 78% de internações hospitalares. Em frequência, são 2,5 internações domiciliares a cada mil beneficiários, contra 85 internações hospitalares a cada mil. Para Amanda, os números indicam que o setor ainda opera sob uma lógica fortemente hospitalocêntrica. “Esse planejamento precisa começar quando o paciente ainda está internado. O cuidado não começa na alta. Se a gente olhar para isso só na alta, vai olhar tarde demais”, disse.

A gerente executiva também destacou características próprias das autogestões. Cerca de 30% da população atendida pelo segmento é idosa, e a taxa de rotatividade é de 6,7%, menor que a observada em outros modelos de assistência. Essa permanência, segundo Amanda, favorece um olhar mais longitudinal sobre o beneficiário.

Mesmo assim, ela apontou espaço para avanço. Segundo os dados apresentados, 100% das autogestões têm algum olhar para hospitalizações assistidas, mas apenas metade realiza assistência pós-alta com cuidado coordenado.

“As autogestões têm um olhar mais longitudinal, mas ainda há caminho a percorrer. Para tirar o debate apenas da lógica de custo, precisamos olhar de fato para a coordenação do cuidado”, afirmou.

Tacyra Valois reforçou a necessidade de diferenciar o que é gasto assistencial e o que pertence a outras dimensões da vida do paciente. Para ela, o sistema de saúde tem absorvido custos que nem sempre são propriamente de saúde.

“Estamos assumindo, enquanto saúde, custos que não são custos de saúde. São custos sociais. Precisamos diferenciar o que é assistência à saúde, melhoria de condição de saúde, custo social e custo educacional”, observou.

Ao longo do painel, a atenção domiciliar foi tratada como uma alternativa necessária, mas insuficiente quando não há coordenação. A transição do hospital para casa, na leitura apresentada por Amanda, exige mais do que autorização, pagamento e execução do serviço. Exige jornada definida, responsabilidades pactuadas e suporte para que a família não seja deixada sozinha no ponto mais frágil do cuidado.

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